A importância da política macroeconômica pode influenciar na maneira como a cidade e seus habitantes se comportam.
O Brasil mudou nos últimos dez anos. Mudou porque houve uma queda acentuada do desemprego, chegou a 6%, uma drástica elevação do valor do salário mínimo, em torno de 60%, e uma significativa ampliação do crédito, que dobrou como proporção do PIB e, hoje, já é superior a 50%. (SICSÚ, 2012)
Esses elementos trouxeram renda e melhoria, por exemplo, para as habitações em favelas: abrigos de madeira foram substituídos por barracos de alvenaria.
Crédito para construção de casas para pessoas de baixa renda, e ainda financiamento de materiais de construção, fizeram com que cidadãos com um menor poder aquisitivo pudessem realizar a construção, ou reforma, de suas casas.
Outros investimentos do governo, como por exemplo, Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), conduzem ao melhoramento dos equipamentos urbanos e serviços públicos.
Esse foi o momento onde os mais necessitados perceberam que não basta ter emprego. O emprego é essencial, mas é preciso ter transporte, saneamento, iluminação, coleta de lixo, varrição, segurança pública, áreas de lazer, etc.. É preciso ter direito à cidade onde moram, deste modo, passaram a desejar o investimento (público) para todos. (SICSÚ, 2012)
Atualmente a preocupação das administrações públicas não é exatamente resolver os problemas urbanos, sejam de cunho social ou técnico. Não há planejamento e gestão nas maiores cidades brasileiras e principais Estados da Federação. Há inauguração de obras. As campanhas eleitorais enfatizam as inaugurações de novas vias rodoviárias, dos novos hospitais, das novas pontes, das novas escolas etc. Mas, as novas vias de acesso não são mantidas e os novos prédios de escolas e hospitais não oferecem serviços proporcionais às pompas de suas inaugurações. Por parte de governantes, não há a preocupação com a entrega de serviços de qualidade e a manutenção dos equipamentos públicos das cidades e estados. Há somente a inquietação com a necessidade de inauguração de obras, coincidindo com os interesses de construtoras, empreiteiras e da indústria automobilística. (SICSÚ, 2012)
Sicsú, também, descreve que a desintegração dos espaços metropolitanos (em centros e periferias) das grandes cidades ocorre devido à falta de planejamento urbano, falta de políticas habitacionais e ao desequilíbrio do gasto público – que prioriza regiões indicadas pela dinâmica da valorização imobiliária. Favelas e bairros periféricos das grandes metrópoles e das cidades do entorno são colocados à distância, também, devido à falta de investimentos em transporte público. Além disso, seus moradores são estigmatizados porque habitam regiões sem segurança pública, coleta de lixo e saneamento. Moram em regiões violentas, sujas e com esgoto a céu aberto. É um afastamento territorial e social de milhões de cidadãos.
A segregação social ainda é uma fronteira a ser vencida pelas administrações locais, uma vez que não cabe ao poder federativo do país legislar sobre os problemas pontuais das cidades.
As classes mais pobres cresceram e foram economicamente incluídas no mercado de consumo devido às políticas do governo federal, mas continuam excluídas das cidades que moram. Contudo, inclusão social plena, e não apenas econômica, só poderá acontecer quando houver alinhamento de projetos nos três níveis de governo. (SICSÚ, 2012)
Em conclusão, a redução das desigualdades sociais para patamares civilizados somente será possível, portanto, com políticas e projetos sintonizados dos três níveis de governo, isto é, políticas urbanas devem ser coerentes com políticas macroeconômicas. As cidades devem se preparar, planejar, para que cresça de maneira sustentável e que utilizem os recursos econômicos de maneira inteligente e não criem mais problemas ao invés de resolve-los.
João Sicsú é Professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi diretor de Políticas e Estudos Macroeconômicos do IPEA entre 2007 e 2011.
SICSÚ, J. Economia - Da macroeconomia à inclusão nas cidades. Carta Capital, 2012.